A ARTE DE PESCAR
Para aprender a pescar é necessário, antes de mais nada, arranjar um belo esgotamento nervoso . Essa doença, de fato, é o motivo mais moderno e sem dúvida alguma, o mais esnobe para nos tornarmos pescadores. Claro que existem outras razões que nos induzem a declarar guerra aos peixes: Ter nascido, por exemplo, à beira do mar ou de um rio piscoso; ser filhos de pescadores profissionais; ter necessidade de agradar o chefe despótico e apaixonado por essa nobilíssima arte... Poderia prosseguir nessa investigação psicológica por mais vinte páginas, dando mil motivos pelos quais as pessoas se dedicam à pesca . Entretanto, o esgotamento nervoso é sem dúvida o principal responsável pela venda do maior volume de apetrechos para a pesca.
O médico diz: “Meu caro amigo, o senhor é substancialmente uma pessoa sadia, seu arcabouço é ainda resistente, novo, com pouca quilometragem... O que realmente não funciona como deviria é seu sistema nervoso. Seus nervos estão tensos, a corda parece esticada demais...”.
“ Que corda ?” , perguntamos, sem entender.
O médico sorri com indulgência, com um certo ar de compadecimento. E depois prossegue em tom paternal: “O senhor não gosta de se distrair? Não está interessado em alguma coisa fora de suas atividades profissionais? Por exemplo, por que não coleciona selos? Não gosta de filmar e super 8?”
Nossa resposta negativa nos faz sentir um pouco culpados, ultrapassados. Na realidade. Os selos nunca despertam nossa paixão. Alias, nunca conseguimos entender que prazer pode haver em colar selos num álbum que não será despachado pelo correio! Quanto à fotografia, temos que confessar que nunca fomos além do clássico instantâneo do grupo familiar, com todos os parentes alinhados na frente da câmara. Sorriso esticado nos lábios e pose de monumento malfeito; e, quando apertamos o botão da objetiva, todos mexem; as crianças enfiam o dedo no nariz, a esposa coça a perna direita, a sogra espicha o pescoço até desaparecer do quadro e o cachorro foge deixando na fotografia apenas um pedaço do rabo amarelo e desfocado. Cinema? Melhor não tocar no assunto! Quanto à pintura, ai está uma arte que sempre nos apaixonou e que certamente seria nosso hobby preferido se apenas soubéssemos desenhar uma arvora parecida com árvore.
“Entretanto”, diz então o médico, “O senhor é uma pessoa muito atarefada... E isso não é bom! É indispensável que saia da rotina, que faça alguma coisa nova, que experimente novos interesses... Por exemplo: por que o senhor não tenta pescar ? Experimente ...?
Experimentei. Deus se experimentei! Embora não possa considerar-me em grande teórico da pesca, a história de minha iniciação nessa arte poderá servir a quem, hoje cheio de grandes esperanças e ilusões, se preparam para fazer a sua primeira pescaria. Talvez consiga evitar os erros que eu cometi.
O equipamento
Os pescadores que realmente merecem esse nome constroem e aprontam pessoalmente todos os apetrechos necessários a uma boa pescaria. Mas nós os compramos prontos e bonitos, numa loja quase sempre caríssima. Para comprar é preciso muito critério e bom senso. Poe exemplo, um bom conselho consiste em travar amizade com o dono ou o balconista de uma loja de artigos esportivos. Assim, quando vocês se tornarem orgulhosos proprietários de uma quantidade enorme de objetos talvez bonitos, seguramente sugestivos, mas absolutamente inúteis para apanhar peixes, poderão usar a desculpa o fato de ter confiado no amigo.
Primeiro, a vara. Comecem adquirindo uma, só uma! Existem varas de tamanhos diferentes e várias medidas, mas todas, ainda que desmontadas, são infalivelmente alguns centímetros mais compridas do que o lugar reservado no carro de seu amigo ou visinho de casa.
Seria bom que os iniciantes não se aventurassem a comprar instrumentos de material delicado e de uso complicado. Melhor optar por uma vara simples, isto é, para pescar em rios onde não há peixes. Essa primeira vara deve ser – importantíssimo! – de preço baixo, pois se quebrará com extrema facilidade. Portanto, melhor reduzir os prejuízos logo de saída. De qualquer maneira, essa vara permitirá que vocês se familiarizem com os movimentos essenciais de um pescador, ainda que com ela jamais cheguem a apanhar um peixe. Mas a quem os olhar de longe, sentados com a vara na mão – amaldiçoando baixinho a pesca e o médico que os aconselhou a fazer isso – vocês poderão, inclusive. Dar a impressão de “pescadores experimentados”.
Depois, à noite, ao voltarmos para a cidade, com a vara saindo na janelinha do carro, os pés frios e molhados, uma incipiente dor de cabeça devida a mudança de clima ou de ar, nenhum peixe na sacola e sem óculos no nariz (esquecidos sobre a pedra junto à margem do rio), tentem meditar e se convencer de que, afinal, a coisa mais importante foi o tempo que conseguiram perder de maneira despreocupada. Não conseguirão, mas tentem assim mesmo!
O programa
O dia mais excitante, para quem vai pescar, é quase sempre a sexta-feira, isto é, quando a gente não vai pescar. Você não sabe como anunciar esse seu inabalável propósito a esposa, faz duas ou três tentativas, depois decide recorrer ao sistema terapêutico. Então suspira, diz que está terrivelmente nervoso, cansado, que está sentindo uma necessidade tremenda de fugir da cidade, que precisa de um dia de tranqüilidade e repouso... E depois aguarda esperançoso que sua esposa responda: “Coitado, por que não vai pescar amanhã?” . Ai, antecipando esse diálogo mefistofelicamente engendrado, você responderá: “E você? Não quero que fique sozinha!”. Ela, porem, insistirá: “Não se preocupe, querido! Irei visitar a mamãe, já prometi”...” Relutante, quase contragosto, você então aceitará: “ Está bem, preciso ir... Você mesma pode ver em que estado me encontro! “Mas não gosto de deixá-la sozinha...”.
Teoricamente, tudo está perfeito! Então experimente! Depois da encenação de cansaço, de dois ou três suspiros profundos e bem dados, de passar a mão na testa apertando as têmporas como se estivessem martelando de maneira insuportável, enfim depois disso tudo, você ouvirá como resposta: “Se amanhã pretender ir pescar, tire isso da cabeça. Fomos convidados para almoçar na casa da mamãe”. Então, ou você concorda mansamente ou parte para briga. Um bom pescador. Ou alguém que pretende sê-lo, briga. É fatal. Isso explica porque, quase sempre, o pescador que acabou não pescando coisa alguma volta para casa com 2 ou 3 quilos de peixe comprados às escondidas numa peixaria que – graças a Deus! – ficam abertos também sábados à noite.
A arte do “lançamento
Agora vamos falar da compra de uma vara mais complicada, chamada “vara de lançamento” ou coisa parecida. Essa vara igualmente terá que ser barata, pois também essa se quebrará num amém. Com ela nunca apanharão um peixe, mas será útil para aprender a técnica desse bendito “lançamento”, uma coisa extraordinária, incrível e muito bonita quando é feita por outros. Você olha para outro pescador a seu lado: a linha está elegantemente pendurada na vara, dócil e mansa; então o homem faz um movimento simples e o anzol descreve uma parábola perfeita, caindo exatamente no ponto desejado. “Fácil!” , você pensa. E com perfeita inconsciência prepara-se para tentar.
Eu experimentei várias vezes, quatro para ser preciso. A primeira vez dobrei o joelho esquerdo ligeiramente, desloquei para frente o pé direito. Fiz uma belíssima torção à esquerda e depois não sei mais o que fiz, pois o anzol, coma respectiva isca, enfiou-se maldosamente em meu cabelo. Na segunda vez fiz exatamente ao contrário: dobrei ligeiramente o joelho direito, coloquei para frente o pé esquerdo, com a mão desenrosquei o anzol, dei um arranco com força e logo em seguida comecei a pular num pé só – xingando os rios, o mar, a água em geral todos os peixes do mundo – com o anzol bem fincado na barriga de minha perna direita. Na terceira vez nada aconteceu, pois o anzol caiu mansamente aos meus pés.E depois da quarta tentativa desisti definitivamente, pois nunca mais encontrei o anzol, a isca e quase 2 metros de linha. Desde então eu evito cuidadosamente novas experiências.
O anzol e a isca
Seja qual for o tipo de pesca que você pratica, seja qual for o tipo de isca que você oferece a fome dos peixes, a arma mortal é aquele gancho de aço ou de bronze chamado anzol. Existem anzóis de forma e de tamanho diferentes, mas todos os modelos, sem exceção, conseguem furar perfeitamente seus dedos, suas pernas e outras coisas que não vale a pena citar. O anzol tradicional tem um lado que termina de forma achatada, com um furo onde se amarra a linha; e outro lado se acaba numa ponta fininha e mortal, com a qual os outros costumam apanhar os peixes. A nós, isso nunca acontece.
De qualquer maneira, só o anzol não é suficiente para pescar. Os peixes, segundo consta em muitos livros, são míopes, mas enxergam o suficiente para saber que um anzol é um anzol, isto é, algo que é preciso evitar. Então? Então camufla-se o anzol para que o peixes e sinta estimulado a agredi-lo. A camuflagem chama-se isca.
Os peixes, como todas as criaturas deste belo mundo, têm o hábito e a necessidade de comer. Proporcionalmente, aliás, comem muito mais do que o homem e até muito mais do que um elefante. Dizem que eles estão sempre comendo, que comem até estourar. Muito bem, para atraí-los até o anzol, nada melhor do que oferecer as suas bocas famintas algo para comer, isto é, a isca. Existem iscas naturais e iscas artificiais. Tanto umas quanto as outras nunca deram certo para mim. O terceiro tipo de isca – aquele com o qual se apanham peixes – ainda não foi inventado.
A melhor isca natural, ao que parece, são as minhocas, aqueles bichinhos que costumamos encontrar com extrema facilidade mexendo na terra de nosso minúsculo jardim quando não vamos pescar. Ora, a minhoca parece possuir um sexto sentido, se é que já tem os outros cinco! Ela “sabe” com antecipação infalível quando você vai pescar; e se comporta de maneira adequada. Desaparece. De nada adianta munir-se de pá e latinha e cavocar todo jardim. Jamais conseguirá encontrar uma, nem de amostra! A única coisa que conseguirá será acabar definitivamente com a grama já raquítica de seu jardim, sujar as unhas e arranhar os dedos.
Os veteranos da pesca dizem: “Tratem logo de apanhar um peixe, abram sua barriga com a faca, vejam que ele comeu, utilizem como isca algo parecido e estejam certos de que irão conseguir encher o cesto de peixe” . Parece um belo sábio conselho, não fosse tão difícil apanhar esse primeiro peixe e depois encontrar seu estômago. Certa vez quis praticar com um peixe comprado, abri-lhe a barriga com a faca, porém não consegui encontrar seu estômago. Se ele tinha estômago, devo tê-lo confundido com outras coisas.
Outras iscas naturais são ovas de salmão (caríssimas), certas ervas que desconhecemos, miúdos de frango, frutas, milho e tudo o que lhe passa pela cabeça. Basta armar-se de esperança antes e de resignação depois.
O pescador, todavia, chega à sofisticação quando abandona as iscas naturais e só pratica a “pesca esportiva” , isto é, com iscas artificiais. Esse tipo de isca, teoricamente, pode ser fabricado pelo próprio pescador. Os outros costumam fazer isso; nós, como sempre, compramos tudo o que é preciso nas lojas. Para comprar boas iscas artificiais, porém, comecem deixando de lado tudo o que parece bonito e agradável, pois ninguém provou, até agora, que o gosto estético dos homens coincide com os instintos dos peixes. Quando mais uma isca artificial for enfeitada, lustrada, quanto mais artística parecer, mais ela se assemelhará a um bibelô - convenhamos! – nunca ninguém pensou em usa-los como isca de peixe.
Onde, quando e como
Os locais apropriados, aqueles onde é possível apanhar dezenas de peixes, são extremamente secretos. Os outros os conhecem todos, nós não. Nós tentamos descobrir um lugarzinho bacana, na beira de um rio doce e tranqüilo, onde crescem árvores magníficas, com bastante sombra, com pedras deliciosamente espalhadas ao redor pela mão de Deus.Um lugar muito romântico e cômodo. Um lugar que, com certeza, deve agradar também aos peixes. Ledo engano! Os peixes abominam esse lugar. Eles o evitam acintosamente, passam longe, riem dele e dos pescadores que refletem sua imagem na água.
Os bons lugares para pescar – como já disse – são conhecidíssimos por nossos amigos. Eu tenho um caro colega. Artur, que certa vez me garantiu conhecer uma paraíso dos pescadores. Um trecho de rio ameno e agradável, onde os peixes brigavam para abocanhar a isca e o anzol. Combinamos um dia de pescaria, marcando o início da viagem bem de madrugada. Às 6 horas em ponto do dia fatídico levantei e comecei a preparar meus apetrechos. Às 7 horas tudo estava pronto: a vara sobrava, como sempre, da janelinha do carro; mas o resto estava em ordem, bem arrumadinho e limpo. Artur chegou as 9 horas. Quando viu a vara fora da janela, sorriu com indulgência e disse “Espere aí que vou arruma-la para você”. Então entrou no carro pela porta direita, saiu pela esquerda, voltou a entrar, ajoelhou-se no assento dianteiro, apoiou-se com o peito ao encosto, dobrou-se, ficou de pernas para o ar uns vinte segundos, quebrou com uma solada o botão do rádio do carro, e depois soltou um gritinho e reapareceu pela porta de trás com o rosto vermelho e o polegar direito na boca. “Machuquei o dedo “, lamuriou-se. Chupou o polegar mais um pouco, bateu a porta do carro com raiva e depois concluiu: “Vamos deixar a vara como está”. Para coloca-la no lugar certo deveríamos remexer em tudo! ...”. Partimos muito depois da 10 horas; e minha vara continuava a tremer fora da janela do carro”.
Viajamos quase duas horas.
É um fato, incontrovertido e facilmente testemunhável, que todos os locais bons para pescar são sempre inacessíveis.
Assim esfolamos o carro, esfolamos as mãos e os joelhos para ganhar uma rocha escorregadia e áspera e ficamos de cócoras sobre uma pedra de 20 cm de largura por mais de duas horas e não apanhamos um peixe sequer. “Culpa do tempo”, disse o meu amigo. “Quando tem sol demais, os peixes somem”. Explicou-me que a hora melhor para pescar é o crepúsculo, logo depois do pôr do sol. Esperamos. Às 16 horas começou a chover torrencialmente. “É melhor irmos embora”, disse então. “Voltaremos outro dia”. Desde então vivo com medo de outro convite para “uma boa pescaria”, convite que ele, por sua vez, também evita cuidadosamente fazer.
A pesca em alto mar
Uma das coisas mais bonitas relaxamento para os outros, é a pesca em alto mar. Parte-se de manhã cedo. Na popa estão os mantimentos que deverão satisfazer nosso apetite, seguramente aguçado pelo ar do oceano. Contam-se histórias divertidas, no barco reina uma paz alegre e solene. Sentimo-nos bons e misericordiosos. A proa corta as ondas mansas, desliza por cima da água com ritmo de valsa, há cheiro de mar, um cheiro bom de coisas limpas de incenso, como dizemos poetas. E os peixes estão lá, prontos para se deixarem apanhar após árdua luta que valorizará os resultados. Há um mar cheio de peixes com os quais o homem – isso é, eu, você, nós – medirá sua própria força, coragem e inteligência. Oh, como é linda a pesca em alto mar contada por outros!
Eu fiquei entusiasmadíssimo quando me convidaram pela primeira vez (e última) vez para participar de tamanha aventura. Passei a noite toda sem pregar os olhos. Fechei-os exatamente ao amanhecer, quando já estava na hora de partir. A viagem foi até agradável, não fosse o sono. O carro se comportou otimamente, nenhum pneu furou, a Polícia Rodoviária foi educada e gentil quando nos multou, nenhum acidente nos impediu de chegar ao mar. Lá alugamos um barco. Era branco e vermelho; e tinha uma aparência honesta, inocente e sensata, de pessoa séria, madura, quarentona! Chamava-se Bidu, nunca esquecerei...
Os cientistas, os sábios em geral e todos aqueles que nunca foram obrigados a consultar um psiquiatra jamais incluíram os barcos entre os seres vivos. Entretanto, posso adiantar – baseado em dados indiscutíveis extraídos de minha própria experiência – que os barcos pertencem à categoria dos seres vivos; eles são animados, dotados de vida própria, pensam... E seus pensamentos são maldosos, traiçoeiros, imprevisíveis e desconcertantes. Vou contar...
Meus dois amigos pularam no barco com agilidade de atletas: um salto leve, perfeito, adequado para qualquer outro lugar, menos para um barco. Pois este, com um movimento brusco e maligno, deslocou ligeiramente. O primeiro esfolou um cotovelo, o outro torceu o tornozelo. E eu? Eu sorri. “Erraram”, pensei comigo mesmo, “mas eu não vou errar. Calma e prudência e tudo sairá de maneira perfeita.” Foi o que fiz. Esperei que o barco, ajudado por uma leve onda, se aproximasse do ancoradouro de madeira podre e escorregadia, e depois, cautelosa porém decididamente, enfiei o pé direito no barco.
Data exatamente desse preciso momento – que jamais esquecerei – meu ódio, aversão e antipatia irremediável em relação a todos os tipos de barco deste mundo. Pois o Bidu calculou o tempo com precisão, fez movimento brusco e inesperado e se afastou. E eu fiquei com o meu pé direito no barco e o esquerdo preso entre as tábuas do embarcadouro, as pernas abertas num ângulo de 180 graus, uma façanha digna dos mais famosos bailarinos do mundo. Quando alguém me empurrou para dentro do barco, onde bati o nariz esfolei as mãos, já tinha esquecido os peixes e o belo dia que me esperava.
Não, não vou falar dos peixes que apanhamos, pois não apanhamos um sequer de amostra. Meus dois amigos, que eram veteranos da pesca em alto mar e que contavam em seu ativo com dezenas e dezenas de peixes enormes e raros, por triste ironia da sorte passaram mal. E eu também. Algo que devia ter comido no dia (ou na semana) anterior ficou pesado em meu estômago o dia todo, dando-me uma pitada de náusea. Ninguém comeu, não sei por quê.
Quando voltamos, à tarde, sem peixes e descascados pelo sol, com os olhos avermelhados e as faces brancas que nem mortos, demos o cesto de alimentos de presente ao homem que nos havia alugado o barco e que, com pena de nós, nos vendeu três cambucus que parecem sardinhas recém-nascidas.
As histórias
E finalmente passamos à parte mais importante da arte de pesca: as histórias que a gente é obrigado a contar a parentes e amigos. Para ser bom pescador, de fato, é preciso possuir uma imaginação fértil. E quando digo “imaginação” não me refiro apenas ao número de peixes apanhados, mas a todo um ritual da arte de mentir. Não basta dizer: “Domingo passado apanhei quarenta peixes”. Nada disso. Durante a conversa é preciso saber conduzir os amigos ao assunto, com jeitinho, devagar. E invente um fracasso. Tem que inventar, pois você não pode limitar-se a narrar seus fracassos reais, sem graça, sem cor, sem um mínimo de emoção. É preciso saber imaginar um insucesso emocionante, diferente. Por exemplo, nunca diga que ficou o dia inteiro sentado à beira do rio, com a vara na mão, sem pescar um peixe; mas diga que um peixe enorme mordei a isca. Um peixe de uns 5 quilos pelo menos. Um peixe que, por sua imprudência, fugiu. E que, no fim do dia, teve que se contentar com 39 (nunca diga quarenta) peixes pequenos, misérrimos, coisa à toa... E que voltou para casa morrendo de raiva por ter deixado escapar do anzol aquele gigante dos rios, um peixe nunca visto pelo tamanho e beleza. Em resumo, você tem que dar a impressão de que seus imaginários 39 peixes foram um fracasso, um estrondoso insucesso. Os outros acreditarão. E aos poucos, com o passar do tempo, você também acabará por acreditar!
quinta-feira, 12 de março de 2009
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